SINOS: SÍMBOLOS DE MUTAÇÃO SÓNICA

“since the notion of the cosmos was too great for men to grasp, the cathedral had to symbolize it in a manner such as the eye and the mind could compass” Willem Elders
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A paisagem sonora das cidades modernas é dominada pela omnipresência dos motores dos automóveis e, num plano secundário, das vozes humanas.
A identidade sonora de uma cidade moderna é-nos então dada pelas particularidades fonéticas e fonológicas da pronúncia dos seus habitantes e dos seus marcos sonoros específicos. Em Guimarães, uma cidade fortemente marcada pela cultura cristã, o sino é assim um dos poucos elementos que ainda se consegue sobrepor ao pano de fundo dominado pelos automóveis, uma vez que as próprias condições geográficas da região, caracterizadas pelos seus pequenos montes e colinas, fazem com que o seu som se propague livremente do alto das torres das capelas e igrejas por longas distâncias.
É inegável também a extrema importância cultural do sino na cultura cristã. Para além de ser um símbolo de poder e um marco visual de representação do transcendente e de uma ordem inatingível, ele é usado também par propósitos seculares e sociais, actuando como regulador de hábitos sociais através da marcação regular dos períodos de tempo. Nas cidades e tempos modernos, porém, o sino foi perdendo a sua predominância, por causa da banalização do uso do relógio, da perda de influência da igreja católica, da introdução de sinos automáticos e eléctricos e do aumento do ruído de fundo. Mas, de um ponto de vista musical, esta transição não significa uma perda de importância na riqueza sónica de uma cidade. O sino mantém as suas características espectrais aperfeiçoadas durante séculos.

Vários estudos recentes têm demonstrado a grande complexidade timbrica dos sinos, algo que tem sido explorado secularmente em várias culturas. O facto da nota fundamental que é percepcionada não estar presente numa grande parte dos sinos (fenómeno psicoacústico denominado altura virtual), os ligeiros desvios de afinação dos principais parciais, a inharmonicidade dos parciais mais graves e agudos ou a produção de mais do que uma nota fundamental (devido às irregularidades de construção) conferem aos sinos uma sonoridade rica e misteriosa, em constante mutação. Estas variáveis fazem com que os sinos sejam elementos musicais sujeitos a diferentes leituras através dos tempos. No entanto, eles continuam a representar elos simbólicos transversais, susceptíveis de serem apreendidos tanto pelo olho como pela mente humanos, à espiritualidade das culturas e até à própria história da música.

A banda Torto, de Jorge Coelho, Jorge Queijo e Miguel Ramos incluiu num dos seus novos temas alguns dos instrumentos do Srosh. A gravação decorreu nos estúdio Sá da Bandeira, Porto, com Gustavo Costa e Henrique Fernandes nos laptops acústicos e vários metalofones.

O trio Radial Chao Opera edita o seu segundo disco, depois da sua estreia em 2010 pela editora italiana Setola di Maiale. Partindo da improvisação livre e de pequenas redes de estruturas trabalhadas pelos músicos há vários anos, Dve Két incorpora elementos de música tradicional, livre improvisação e electroacústica numa combinação improvável e que se demarca da aproximação mais tradicional à improvisação do primeiro disco. São utilizados vários instrumentos desenvolvidos pelo colectivo Srosh, em combinação com instrumentos convencionais modificados e algum processamento electrónico.
Henrique Fernandes, João Filipe, Gustavo Costa: gongs, guitarra portuguesa, acordeão, bateria, harpa, polychordeon, kalimba, metalofone slendro, flautas, laptops acústicos, contrabaixo, folhas, pacarana

Mais informações no site da Sonoscopia: http://www.sonoscopia.pt

Os projectos Most People Have Been Trained To Be Bored, Two White Monsters Around a Round Table e Radial Chao Opera, de Gustavo Costa, Henrique Fernandes e João Filipe, irão estar numa digressão europeia já a partir da próxima sexta feira. A digressão servirá de apoio às novas edições dos projectos, lançadas pela Sonoscopia, e será apresentado também algum do instrumentário Srosh. A digressão irá passar por:

13 Janeiro: Madrid, Espanha
14 Janeiro: Barcelona, Espanha
16 Janeiro: Novara, Itália
18 Janeiro: Treviso, Itália
19 Janeiro: Maribor, Eslovénia
20 Janeiro: Beltinci, Eslovénia
21 Janeiro: Sárvár, Hungria
22 Janeiro: Budapeste, Hungria
23 Janeiro: Poltár, Eslováquia
24 Janeiro: Bresno, Eslováquia
25 Janeiro: Brno, República Checa
27 Janeiro: Viena, Áustria

O colectivo Srosh irá participar na próxima edição do Sonópolis, evento que reúne as comunidades desenvolvidas durante o ano pelo serviço educativo da Casa da Música. Estamos neste momento a finalizar alguns dos novos instrumentos que estamos a criar. A edição deste ano será dedicada à música norte americana, e decidimos por isso tomar como ponto de partida a obra dos compositores Harry Partch, John Cage e Henry Cowell. Ficam aqui algumas imagens do processo de trabalho.